Rumo a uma Governança Global da IA
Ler em inglêsA governança da tecnologia pode ser melhor entendida como uma forma sistemática de modelar o futuro que desejamos para a tecnologia, aplicando boas práticas e políticas, com accountability, transparência e raciocínio contínuo (debate público) sobre melhores opções, trade-offs e restrições éticas. Tornando-se um processo contínuo e retroalimentado.
À medida que ela pode compor algum tipo de rede de hubs de governança distribuídos por organizações de todos os setores, podemos vê-la como um caminho racional e seguro para garantir algum nível global de governança de tecnologia, conectando ações locais a frameworks globais orientados por uma visão global. À medida que a sociedade inicia algum tipo de “civilização de nível planetário” com a criação da internet, como diz o famoso cientista Michio Kaku.
Sendo esse tipo de civilização de nível planetário, devemos pensar nela em todas as suas camadas de interconexões, e a tecnologia é um dos atores centrais desse jogo. Podemos ver isso facilmente na narrativa instigante que nos acompanha há anos e anos. Falo do tipo sempre presente e contraditório de tendência sobre a tecnologia. Uma mais tecnofóbica, outra mais tecnofílica.
Podemos ver o padrão através da história. Sempre se trata de escolher o caminho e suas consequências. A tecnologia sempre teve potencial de destruir e construir, às vezes ao mesmo tempo. Basta lembrar da energia nuclear por um segundo. Certo?! Nosso papel, como humanos criadores de tecnologia, é ser capaz não apenas de criar, mas também de governar sua criação e implantação na sociedade da melhor forma possível.
Qual é a melhor forma possível? Tudo (ou apenas) o que é benéfico para seus criadores e seu ambiente, humanos e Terra. É uma mistura adequada de responsabilidade e boa visão. A tecnologia é um empreendimento coletivo. Nós a (re)criamos todos os dias, desde o primeiro dia, o que a torna intrinsecamente conectada com a cultura da nossa civilização.
Podemos ir além e dizer que tecnologia é, por si só, a própria sociedade. Sendo uma das faces (perspectivas) do prisma geral da Vida Humana. Essa que criamos artificialmente para aprimorar a orgânica, resolvendo problemas originados por nossas ações sociais (economia, produção, saúde, educação e assim por diante). Se não estamos aprimorando o que já existe, provavelmente estamos seguindo um caminho de desenvolvimento não desejável como espécie.
Se a internet é nossa primeira tecnologia de nível planetário, a inteligência artificial pode ser a segunda. Assim, é pelo menos razoável o barulho em torno da tecnologia GPT e similares. Com certeza, tudo o que dissemos até aqui se aplica à IA e interromper pesquisas talvez não seja realmente o melhor caminho, não sabemos. No entanto, precisamos de uma forma factível de organizar o desenvolvimento de IA orientado por resultados desejáveis e princípios éticos que mantenham seu processo accountable.
As recomendações da Unesco sobre Ética em IA são um grande esforço rumo a um framework global orientado que imaginávamos no início do artigo. O framework para desenvolvimento tecnológico guiado pela humanidade, focado em IA.
É possível que não consigamos alcançar um framework “tamanho único” para o desenvolvimento de IA em nível global. Além das recomendações da Unesco, existem várias iniciativas e diretrizes voltadas a promover o desenvolvimento e a implantação ética e responsável de tecnologias de IA.
Uma iniciativa notável é o movimento "AI for Good", que busca alavancar a IA para enfrentar alguns dos desafios mais críticos do mundo: pobreza, fome, mudança climática e outros. Outra iniciativa certeira é a Global Partnership on AI (GPAI), uma colaboração entre países líderes em IA que visa fomentar o desenvolvimento de IA de maneira consistente com valores compartilhados e princípios éticos.
Diversas outras organizações, como a IEEE Global Initiative on Ethics of Autonomous and Intelligent Systems e o AI Ethics Lab, desenvolveram diretrizes e frameworks éticos para desenvolvimento de IA, enfatizando a importância de transparência, accountability e valores centrados no humano no design e implantação de sistemas de IA.
Do lado dos governos e órgãos reguladores, alguns já desenvolveram políticas e regulações voltadas a promover o desenvolvimento e uso responsável de IA. Por exemplo, a União Europeia desenvolveu um framework para IA confiável, enquanto países como Estados Unidos, Canadá e Austrália estabeleceram estratégias nacionais de IA. O Brasil também não está atrás e estabeleceu sua estratégia de IA em 2021 por meio da EBIA.
No geral, como um framework global “tamanho único” para desenvolvimento de IA talvez nem seja desejável, dadas diferenças contextuais e culturais, as várias iniciativas, diretrizes e políticas voltadas a promover o desenvolvimento e a implantação ética e responsável de IA já estão em movimento. Então, como podemos ver, já é possível mapear globalmente onde isso floresce e quais são os atores, fatores e iniciativas que já compõem a rede de governança da tecnologia focada em IA. Ainda temos muito trabalho a fazer, pois estamos vivendo os primeiros dias da IA. E o que já está em movimento indica um futuro empolgante feito de avanços tecnológicos éticos nas nossas soluções globais e locais.